Fato é que a nossa primeira experiência como campistas foi um su-ces-so (pausa: sempre odiei essa regra de separação de sílabas, essa dos dois "s"). Sucesso porque a única pessoa no casal com alguma bagagem no assunto era eu, que acampei uma vez, aos 12 anos de idade. Uma bagagem praticamente nula, é claro.
Felizmente, como bem constatou o Filipe, camping não é lugar para gente fresca, logo, contamos com a solidariedade dos vizinhos paranaenses, que passavam os dias fumando narguilé e bebendo cerveja. Nos ensinaram a montar a barraca com mais eficiência (mais eficiência que a deles inclusive, já que a nossa resistiu ao ciclone e a deles, não), emprestaram a extensão para a luz, nos forneceram drinks e boas doses de risadas ao fazerem amizade com o alemão mais engraçado do camping (era afilhado do dono da Malwee - gostosa como um abraço, vendia pele de onça trazida de Frankfurt e subornava passantes para que lhe alcançassem mantimentos comprados no boteco atrás do camping).
Contamos ainda com um vizinho de barraca que tinha a voz e a barriga do Nhonho, do Chaves; outro grupo, de Capivari de Baixo, que se autodenominava "Os Renegados", com direito a faixas, bandeirolas e um carro de som, de onde só saía o tal do Pagode Universitário e coisas do tipo; e ainda um acampamento inteiro de "jovens", onde habitavam temporariamente futuros talentos do pop-rock-emo nacional. Sério, TA-LEN-TO.
Por fim, para completar a obra prima em potencial que é um camping, contamos com "O Mistério". No penúltimo dia de nossa estada por lá, quando todos esses vizinhos maravilhosos já haviam rumado a seus lares, um Palio branco estacionou próximo ao nosso acampamento. Dele, desceram um homem, equipado com cordas, alicates, facas, luva e escada, e dois rapazes, que, prontamente, partiram pelo camping em busca de pedras.
Eu e o Filipe observávamos tudo enquanto tomávamos nosso café-da-manhã. Em questão de minutos, montaram uma lona de aproximadamente cinco metros de altura (ou mais, ou péssima para medidas). Os rapazes seguiam trazendo pedras e mais pedras. Jesus, pensei, para que tantas? Algum outro campista pensou o mesmo que eu, talvez porque, na ânsia de arrecadar aquela enorme quantidade de pedras, eles acabaram roubando uma de propriedade dele. Rolou um pequeno conflito, logo resolvido pelo líder da montagem, que mandou os rapazes devolverem a pedra.
Acabamos nosso café e nos tocamos para a Gamboa. Na volta (de um dia extraordinário), lá pelas nove da noite, nos deparamos com isso (a nossa é a da esquerda e a foto foi feita no dia seguinte. Juro que esse sol todo não é o das nove da noite em Garopaba):
Talvez para você, prezado leitor inexperiente em campings, possa não significar muita coisa. Mas, acredite, era a coisa mais bizarra do camping inteiro, que contava com acampamentos munidos até com telão e projetor. Era algo gigantesco, perfeitamente montado e vazio. Sim, porque nos dois dias e meio que ainda ficamos por lá, com essa coisa ao lado, absolutamente ninguém entrou ou saiu dali.
E por que a moça aqui demorou tanto para contar a historinha no brógue? Porque esta noite eu SONHEI com a barraca, digo a nossa, e esta aí ainda estava vazia, azul e sozinha ao nosso lado.